sábado, 1 de setembro de 2012

O sonho de Acidália e a praga da Parreira.


Mais um dia amanhecia sob o Jardim, mas ao contrário de ontem o sol surgiu um pouco mais cedo nos céus.   O orvalho gelado ainda cobria as plantas enquanto eu observava os lírios, imaginando o que seria daquele dia, até que percebi aproximação de uma velha conhecida. Era Acidália, que não escondia sua preocupação apesar do semblante calmo em seu rosto. Antes de qualquer cordialidade e cumprimento de "bom dia" perguntei a ela:
  - O que houve Acidália? Você aqui tão cedo...
  - Estou preocupada, Chilon. É sobre Agenor.
  - Hum... Preciso de ajuda para podar as parreiras hoje, então, por quê não me ajuda enquanto ouço o que tem a dizer?
Então pegamos as ferramentas e seguimos por dentre o pomar.
  - Eu tive um sonho. - disse ela, enquanto eu tentava lembrar o caminho certo até as parreiras.
  - E o que acontecia? 
  - Ele morria.
Por alguns segundos só se ouviu o canto dos pássaros e eu coçava uma barba inexistente até que avistei as tais parreiras e indaguei: 
  - E qual o motivo de tal alarde?
  - Eu não sei. - ela respondeu de imediato. - Só não quero que ele morra. Antes de vir até você, deixei uma carta na porta de Agenor...
  - Dizendo o que?
  - Nada de mais, só dizia "Agenor, se cuide." e minha assinatura.
Daí, algo começou a maquinar em minha cabeça. Era evidente que algo incomodava minha sanidade diante daquilo.
  - Acidália, cara amiga, mas por que motivos achas que seu sonho irá selar o destino do pobre Agenor?
  - Eu sinceramente não sei dizer, Chilon.
  - Então não há motivo pra tanta preocupação.
Um olhar. Foi o bastante pra que eu começasse a entender a situação. 
  - Hum... - foi o som que emiti propositalmente, tentando despertar a curiosidade de minha amiga.
  - No que você está pensando?
Olhei para ela.
  - E se seu temor pela vida de Agenor for só na verdade uma demonstração de afeto? Afinal, quando gostamos de uma pessoa é natural que nos preocupemos. Sei que você e ele se conhecem a um bom tempo e são bons amigos.
  - Talvez... - foi o que ela me respondeu.
  - Veja, quantas vezes você já sonhou que morria? Ou com quantos monstros horrendos você teve pesadelos durante a escuridão da madrugada?
  - Várias vezes.
  - Quantos deles se tornaram reais?
Outro olhar. Dessa vez, diferente. Um olhar de alívio. Não um olhar de quem estava confiando piamente no que eu havia acabado de dizer, mas de quem tinha ouvido, talvez, aquilo que queria ouvir.
  - Nenhum. - me disse Acidália, enquanto ensaiava um sorriso.
  - Estas parreiras que cuidamos agora... Eu já sonhei que eram tomadas por pragas. E sabe o que eu fiz depois disso?
  - Não.
  - Passei a cuidar mais delas. Eu gosto muito dessas uvas e não as quero perder. Mas se amanhã, de pragas elas forem tomadas, eu estarei satisfeito.
  - Como assim, Chilon? Não te entendo! - fui indagado por ela, quase sendo chamado de louco.
  Eu sorri e respondi:
  - Estarei satisfeito, pois cuidando melhor das parreiras elas me presentearam com as melhores uvas. E se ela tiver de sucumbir amanhã eu estarei feliz pelo deleite que ela já propiciou, ao invés de lamentar a colheita que ela ainda podia dar mas não pode. Então, Acidália, vá e cuide da sua parreira para que possa aproveitar os bons frutos enquanto há tempo. Zele pelos frutos que a amizade de Agenor pode lhe dar... porque amanhã uma praga o pode levar.
Então com um sorriso ela agradeceu e se despediu. Provavelmente foi atrás de Agenor, não sei. E depois da poda, eu fiquei pensando: por que não aproveitamos em vida ao invés de lamentar na morte?

Um comentário:

  1. Acidália, por destino mulher, se preocupa com quem gosta, além de que Agenor é uma das suas parreiras mais frutíferas.

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