sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O parar do Tic-Tac


Um quarto. Um espaço vazio e um relógio. Tudo escuro em volta. Então o tic-tac para. E eu me perco. Meu mundo parou. Nem avança e nem retorna. As colunas que sustentam a mente desmoronam e o que se chama de vida vem abaixo, desabando. O peso dos escombros aumenta cada vez mais. Realidade em choque. O desespero sorri sarcasticamente em sua direção. A solidão levita nos campos vastos da tristeza. Uma imagem do futuro se desmancha. A vida parece nunca ter existido. E eu me pergunto: Por que?! Por que dessa forma?! Será a culpa toda minha?
Vou cavando minha cova.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Até o Fim.


Todo mundo sente isso por alguém. Seja em questão de amizade ou de amor mesmo. Mas todos temos e isso é inegável. Uma pessoa que cresceu com você ou que simplesmente surgiu de repente. Não tem coisa mais confortante para nós do que saber que sempre vai ter alguém se fazendo presente nos melhores e piores momentos de sua vida, gostando de você, lhe aceitando como você é, aprendendo e ensinando. Enfim, vivendo. Em alguns casos a relação é harmoniosa, já em outros as coisas são mais turbulentas, mas nada que não se acerte com o tempo. Pois, pode ser que algo atrapalhe, mas não há nada que acabe com esse sentimento mútuo. Nada. Tem coisas que são frutos de nossas atitudes, assim como outras coisas só acontecem e pronto. E a mesma "força" misteriosa que fez acontecer é tão intensa quanto a que mantêm o mundo de cada individuo em órbita e sincronizados entre si. Destino? Talvez... Mas, prefiro acreditar no esforço recíproco de manter essa ligação forte e duradoura... Até o Fim.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Raiva

 
   Canalizei minha raiva. Num momento de grande fúria, uma tormenta de proporções colossais devasta o os campos da mente. Apesar do ar sereno e da seriedade no semblante, um mundo é destruído violentamente dentro de mim. Mas não vim aqui pra falar desse excesso que recai sobre mim. Estou escrevendo pra tentar descobrir o seguinte: "de onde vem essa raiva?"

   Não existe paradigma  mais falso que o meu: enquanto me embebedo de fúria (sem saber ao certo a razão) não tenho atitudes violentas com nada ou com ninguém. Não há violência verbal nem física de minha parte, mas não nego meus instintos e vontades. Tento não descontar em ninguém... mas sinto esse desejo de extravasar de alguma forma. Parece ser tão em vão não ter um determinado comportamento enquanto vou fuzilando o "mundo" com tantos pensamentos hostis. Admiro esse controle, mas que não tem essência alguma. Talvez seja só mais um desses pensamentos agressivos disparados pelo fuzil da raiva que me tomou subitamente. Talvez passe quando vier a calmaria depois da tempestade. Mas, creio que isso é uma grande verdade.

   *Sinto que preciso voltar a praticar Krav Maga pra mandar pra espaço essa ira que me assola às vezes.*
 
   Mas acho que descobri o origem de tudo isso. Estou com raiva de mim mesmo, e é a pior raiva que se pode ter. Raiva que foi desencadeada porque eu definitivamente parei de me enganar com certas pessoas e situações. Não confunda, afinal não é por causa desses fatores que eu me encontro assim, mas pelo fato de que eu me enganei por muito tempo sabendo o que pensava na verdade e jogando isso pro fundo do poço. Mas todo poço vai secando... e a água que ficava embaixo uma hora vai ser a única que existirá. Não, eu não me enganei, eu tentei. Fiz errado. Agora é só me conformar com toda a verdade que eu sempre soube estar presente e deixa que o tempo me mostre os caminhos, cabendo a mim escolher o qual seguir.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Eu tive um sonho...


Não. Esse texto não é sobre o famoso discurso do ícone Martin Luther King. É só um relato de um sonho singelo. Aleatório. O que me fez estar aqui agora foi o fato de que, apesar da simplicidade dessa espécie de "nirvana" que atingimos durante as nossas horas de sono,  eu acordei me sentindo tão bem, aparentemente sem nenhum motivo, já que foi um simples sonho. Uma outra coisa que me chamou atenção depois de acordar foi que eu não me lembro qual foi meu último sonho. Agora eu vejo que não são todos os dias que eu levanto da cama e sei o que sonhei durante o "sonífero nirvana". A grande intriga é: por que isso acontece? Agora eu entendo o entusiasmo de Sigmund Freud em relação aos sonhos. Me pego agora fascinado com tudo isso. Quanto a minha pergunta anterior, sei que há profissionais que podem me explicar (ou ao menos tentar) o motivo, mas eu prefiro não saber. Talvez o ar da graça seja até esse mistério (acabo de me esbofetar na cara com esse niilismo).

O Sonho.


Não consigo visualizar em minha memória uma continuidade. Em um momento, livre de qualquer regra da física sobre tempo-espaço, eu me encontro num local bem urbano. Me parece um estacionamento de shopping. Na verdade eu tenho quase certeza que é. Um shopping pequeno. Eu não sei como cheguei nem porque estou ali (talvez seja por isso que pessoas que sofrem amnésia têm a impressão que estão sonhando quando voltam a consciência) mas pelo jeito que me visto eu estava ali para correr. Trajando meu tênis para corrida, uma bermuda (apesar de que eu corro de calça esportiva) e camiseta. No sonho (e agora também) eu acho que cheguei de carro, apesar de ainda não ter terminado a auto-escola, me parece que eu estava dirigindo. E daí quando eu me afasto para iniciar minha corrida eu avista uma pessoa conhecida. Na verdade uma pessoa muito próxima que eu conversava ontem. Essa pessoa estava acompanhada de seu pai e mais algumas pessoa das quais eu não consigo visualizar os rostos. O que me vem a cabeça ao passar dessa cena (durante e após o sonho) é: "Oxe, o que é que essa pessoa está fazendo aqui?!". Pareceu que alguém chegou e selecionou a opção "aleatório" no meu sub-consciente.
Pouco depois, eu comecei a correr. Pelo que eu vejo agora, eu saí logo porque me senti incomodado com a presença daquela pessoa, só não sei o motivo. Acho também que eu não queria ser visto. Então eu corri. Devo comentar que eles também usava roupa de corrida e isso está me deixando mais intrigado ainda com a loucura desse meu sonho. Inevitavelmente durante a corrida eu acabei cruzando de frente com esse pessoal. As memórias vão sendo apagadas nessa hora. Só lembro que ignorei e fui ignorado nos primeiros instantes, não sabendo o que aconteceu no período de tempo, quase metafísico. Ah! Um ponto importante, esse não é daqueles sonhos em terceira pessoa (quando você visualizar o personagem da cabeça aos pés), mas em primeira e terceira também. Horas tinha a visão através dos meus próprios olhos, horas me via fora de mim. Numa sequência de cenas que parecia até cinematográfica.
Eu continuava correndo. Essa foi a continuação. Mas em um lugar diferente. Um local mais residencial. com pouquíssimas pessoas transitando nas ruas e nenhum automóvel. E quando eu viro numa certa rua eu me deparo com uma piscina! Avistei uma mulher na calçada cuidando de animais que só encontramos na África, eram pequenos elefantes. É, se eu não soubesse que todo mundo tem sonhos loucos sentiria vergonha de contar tudo isso... Ou não. Eles eram tipos de elefantes anões, eu deduzi agora, já que tinha o um casal adulto que media acho que uns 2 m de altura e não eram tão corpudos. Os filhotes batiam pouco acima do meu umbigo. Eram dois. Eu estava assustado. Medo dos pais na intenção de zelar pela cria me atacarem. O coração disparou mais rápido do que já estava na corrida. Os 4 me olharam e a mulher também. Ela sorria. E eu me senti um pouco mais aliviado. Fui ignorado pelos 4 elefantes-anões (tenho que parar de fumar maconha). Os filhotes entraram na piscina sob vigia dos pais. Conversei algo rápido com a mulher e nem me lembro o que foi. Aí, corri e entrei na piscina. Os filhotes se aproximaram e brincaram comigo, quando eu reparei que havia mais alguém ali. Um garotinho. Conversei com ele também, coisas que meninos pequenos gostam de conversar. A última coisa que me lembro é o sorriso dele.
Agora eu estou numa casa grande e antiga, mas em ótimo estado. Sem saber de quem era a casa, como cheguei e o que estava fazendo ali, eu não sei se cheguei a sonhar se estive dentro da casa, porque nesse momento eu estou debruçado numa varanda circular e pequena com uma cerquinha de ferro pintada de preto no andar mais alto. Só caberia ali ,confortavelmente, um casal apaixonado ou um solteiro pensativo como eu, para contemplar um magistral e único fim de tarde ideal que acontecia naquele momento. Uma árvore frondosa e anciã ocupava um grande jardim no fundo da casa (era a parte da casa onde ficavam essas varandas). Eu estava no 2º andar contemplando aquilo tudo em paz de espírito, quando alguém apareceu na varanda abaixo que ficava um pouco mais ao lado. Era uma garota. Nunca a tinha visto e provavelmente não sei se verei. Era uma garota linda como eu nunca tinha visto. Vestia um grande vestido negro daqueles antigos de novelas de época. Sorria e me olhava. Apesar de meu olhar de indiferença no momento, parecia que eu a conhecia, não sei se como amigos, família ou algo mais íntimo. Mas ela também me conhecia bem, já que meu olhar pouco expressivo e sério não tirou o sorriso do seu rosto. Perto das varandas havia galhos da árvore anciã. Então eu me estiquei e comecei a colher alguns frutos, os quais eu nunca vi na minha vida. Eram grandes e os mais maduros eram bem amarelados. Eu colhia e jogava para a garota do andar de baixo. Enquanto conversávamos e riamos. Uma conversa muda, já que eu não lembro de nada.
Agora eu estava saindo da casa para o jardim dos fundos. Defrontei aquela linda e frondosa árvore anciã. As folhas caindo marrons contrastavam com o verde rico da grama e das folhas das trepadeiras que dominaram os muros ao redor. O sol estava fraco e se escondia atrás das nuvens, gerando uma iluminação um pouco baixa mas que me trazia uma sensação de paz enorme. Ali eu tinha achado a perfeição...
Era perfeito de mais. Foi aí que eu despertei. Um despertar sereno e feliz.
Depois desse sonho eu sinto que tenho muito ainda o que viver. Quero ter novamente aquela sensação momentânea de felicidade mútua mesclada a perfeição da natureza. Esse é o motor que me move agora. A busca da felicidade. Seria ótimo se quando morrêssemos  fossemos parar em nossos sonhos mais bonitos. Muita gente iria querer morrer logo em busca de tal coisa. Mas, talvez seja por isso que ninguém volta do lado de lá pra relatar o que acontece quando voltamos para mãe-terra. Esse vai ser meu motivo agora de seguir adiante, encontrar novamente aquele sentimento. Vou viver.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A Papoula de Dionísio.


Estávamos em festa. Era o meio do inverno, quando pedimos a Dionísio fertilidade para a terra. É claro que é uma data importante aqui no Jardim e todos comparecem, dando sua contribuição para os festejos. Hector, Dora, Hebe, Acidália, Macário, Agenor, dentre vários amigos sempre ajudam nessa época.
Tudo corria bem e feliz como sempre acontecia: muita animação, vinhos, frutas, pães. Até que chegou o dia da grande festa de Dionísio, Deus principal das festas e do vinho, que também agraciava as colheitas com sua benção. Aquele dia todos se encontravam na lareira principal do Jardim. Cercados por lírios-da-paz de um lado e tibouchinas roxas do outro, formando um semi-circulo peculiar. Ao centro da lareira estávamos todos nós, comendo e bebendo, deitados na grama apreciando e comemorando a tarde depois de feitas as oferendas do dia. Foi aí que chegou Dion, principal adorador de Dionísio entre nós, retirando dum pequeno saco vermelho amarrado em sua cintura papoulas.
  - Dion. - fiquei curioso. - Onde conseguiu essas papoulas vermelhas? Nunca vi dessas no meu jardim. De certeza as trouxe de fora.
  - Não as consegui, Chilon. São um presente enviado do Olimpo, através de mim, para ser entregue a um dos presentes.
Alguns riam-se entre os dentes, parecendo debochar de Dion. Outros ficaram mais atentos, por saber da seriedade com que o rapaz misterioso e adorador fiel dos Deuses tratava desses assuntos. Foi nesse momento que, eu, tomado um pouco pelo efeito de alguns bons copos de vinho perguntei:
  - Não andou exagerando no vinho hoje, certo Dion? Ou provando frutas estranhas? - e dei uma risada breve de bêbado velho.
  - Não preciso dar-te explicações. Mostrarei a todos para que não zombem daqueles que nos olham de cima e regem nossas vidas! - Disse ele, ameaçador e calmo.
Aproximando-se de Agenor, que parecia meio receoso com a atitude do sacerdote, Dion, estendeu-lhe a mão parecendo oferecer as estranhas papoulas.
  - Mas, o que é isso? - perguntou Agenor.
  - Fui mandado aqui para lhe entregar. Aceite. São um presente.
E todos olhavam atentamente em silêncio, na expectativa da reação do bravo homem, Agenor.
  - Estás me oferecendo isso só porque sabes que não temo o desconhecido.
  - Se isso lhe fizer aceitar o presente divino de Dionísio, posso acreditar que sim. - sorriu o homem encapuzado de vestes longas e vermelhas.
  - Dê-me isto! - disse firmemente Agenor, que estava deitado e agora sentou-se, tomando as papoulas de Dion.
Os olhares pareciam com os insetos que ali estavam, voando para lá e para cá. Cada um olhava-se sem saber se o homem era maluco ou muito corajoso por ter tomado tal iniciativa. Aguardando o que viria à seguir, todos falavam mil coisas sem citar uma simples palavra... ouviam todos os sons da mata, que pareciam ausentes... ditando o silêncio agonizante da espera.
  - Embebeda as papoulas no vinho e as coma.- era a voz de Dion, aumentando a tensão.
  - Certo. Veremos o que Dionísio me reservou.
E assim o fez, Agenor. Alguns segundos de espera numa contagem regressiva sem tempo determinado e nada aconteceu. E o silêncio ainda amordaçava as nossas bocas. Para mim, a impressão é que o Jardim todo estava observando.
  - Está tudo bem? - perguntou Hector, o único que conseguiu soltar palavras naquele momento.
  - Nada de mais. - respondeu Agenor, sereno. E suado.
Após ter dito isso, reparei que o corajoso e louco homem começara a suar. Sem ter feito esforço algum. Como não costumava trajar roupas que cobrissem o abdômen era possível ver cada poro do seu tronco expelindo suor, que ia começando a escorrer e pingar.
Um minuto se passou desde que Agenor comeu as papoulas. Levou as mãos a cabeça e caiu sobre os joelhos.
  - O que está acontecendo? Fui envenenado, por acaso? - disse ele com certa dificuldade.
  - Relaxe. - respondeu Dion, ajudando o suado e agora tremolo Agenor a deitar-se.

E tudo escureceu. Agenor de olhos abertos só via o breu. Assustou-se. Tentou falar, mas não conseguia ouvir sua própria voz. Tentava mexer-se, mas não sentia seu corpo. Mas sentia frio... "Como assim?! Sinto frio, mas não sinto meu corpo?!", foi o que pensou enquanto se desesperava. Confuso, ele ainda pode perceber que conseguia escutar seus próprios pensamentos. Parou, e não sabia se haviam passado segundos, minutos, horas, dias ou até anos. Quis novamente se desesperar. "Preciso sair daqui! Vou enlouquecer!", e novamente se acalmou ao se ouvir pensando novamente.
  - Que tipo de feitiço é esse? Aquele Dion deve ter mesmo me envenenado e eu devo ter morrido!
  - Será que eu morri mesmo? - ele se indagou.
  - Pode ser um sonho ruim. - ele mesmo se respondeu.
E então um diálogo entre Agenor e ele mesmo foi iniciado em alguma dimensão do desconhecido.
  - Mas um sonho é só uma coisa de nossa imaginação, do sub-consciente.
  - De fato. É algo produzido em nossa mente.
  - Mas eu não queria estar aqui! E ainda assim, aqui estou!
  - Será que você realmente não quer estar aqui, Agenor?
  - Quem é você, que acha que sabe as minhas vontades?
  - Esqueceu? A única coisa que você pode ouvir é sua mente, Agenor. Nem percebeste ainda que só consegues  falar consigo mesmo também.
  - Não... Impossível! Então por que estamos discordando? Você não é eu! Eu ão sou você!
  - Tolo! Eu sou você. A parte de você com quem você não se comunica, mas está sempre lhe acompanhando de perto. Toda vez que você pensa, eu penso também. Mas nem sempre que eu penso, Agenor, você sabe.
  - Haha! Como isso é possível? O tolo aqui me parece ser você.
  - Achas? Então me diga, quando você queima suas mãos na hora de ajeitar a lenha quem é que faz seu braço recuar antes mesmo que você perceba que se queimou?
Silêncio.
  - Não... Não sei dizer.
  - Pois eu sei. Sou eu. O que significa que é você mesmo, Agenor.
  - Seja mais claro, você está me deixando confuso.
  - Eu sou o seu sub-consciente Agenor. Estou escondido na sua mente, que você conhece por... "Você".
  - Mas pra que serve você, se eu nem havia reparado na sua existência?
  - Pra concertar os erros que você comete. Lembra-se de quando você era pequeno, Agenor, quando você  quebrou a lança predileta de seu pai brincando de soldado?
  - Claro. Aquilo rendeu-me uma grande tristeza, apesar de meu pai não ter me punido com uma das usuais surras.
  - E aquela vez que você deixou o coração da inocente Dora em pedaços? Ele não merecia aquilo.
  - Também me senti muito mal. Nem gosto de lembrar, apesar de ela ter me perdoado a mágoa e amargura do arrependimento ainda me consomem até hoje, depois de anos.
  - E eu sei que você já se perguntou muitas vezes o motivo de sentir tais coisas, mesmo que o seu pai não tenha lhe dado uma surra e Dora não tenha lhe esquecido para sempre.
  - Já que sabes tanto, então responda.
  - Porque eu o fiz se sentir assim.
  - É, depois da revelação da queimadura eu sei que você é capaz de certas coisas. Mas ainda assim você me deve um explicação...
  - A resposta pra sua pergunta que eu já sei qual é, é essa: eu estava concertando seus erros, Agenor. Se você não se sentisse triste pela lança do seu pai, você nunca teria feito uma com as próprias mão como pedido de perdão. Nunca teria dito a verdade a Dora e até hoje vocês provavelmente continuariam magoados e sem fazer as pazes. Eu concerto os seus erros depois de feitos, Agenor. Estamos tendo essa conversa para que eu posse te advertir que nem sempre poderei concertar teus erros. Poço fazer-lhe sentir mal com as coisas de uma forma que lhe obrigue a se redimir, mas seria melhor que você fizesse isso sem minha ajuda. Consciente. Afinal, lembras que nas duas situações você havia pensado bem em ter feito o certo antes mesmo de eu interferi com seu mal-estar?
  - Sim, é verdade.
  - Pois então, sei que já entendeste tudo, homem. É hora de acordar, Agenor. Vá e aceite meu conselho.
E Agenor começou a sentir seu corpo novamente, em forma de formigamento. Foi sentido seus pés, pernas,quadril, tronco, braços e então abriu os olhos quando subiu-lhe a cabeça.
Todos o observavam fixamente e pareciam preocupados. Sentou-se e sentiu o corpo pesado, sendo ajudado por Dion. Respirou fundo e nunca havia se sentido tão vivo. Renovação era o que ele sentia.
Contou a todos o que havia acontecido durante aqueles longos 10 minutos que haviam se passado no Jardim. Segundo ele, a impressão foi de que mais tempo havia se passado durante seu transe.
Dion deitou na grama, apanhou uma caneca cheia de vinho e disse:
  - Vamos festejar amigos, pois é dia de celebração! Que a terra se fertilize e Dionísio nos dê mais lições!

sábado, 1 de setembro de 2012

O sonho de Acidália e a praga da Parreira.


Mais um dia amanhecia sob o Jardim, mas ao contrário de ontem o sol surgiu um pouco mais cedo nos céus.   O orvalho gelado ainda cobria as plantas enquanto eu observava os lírios, imaginando o que seria daquele dia, até que percebi aproximação de uma velha conhecida. Era Acidália, que não escondia sua preocupação apesar do semblante calmo em seu rosto. Antes de qualquer cordialidade e cumprimento de "bom dia" perguntei a ela:
  - O que houve Acidália? Você aqui tão cedo...
  - Estou preocupada, Chilon. É sobre Agenor.
  - Hum... Preciso de ajuda para podar as parreiras hoje, então, por quê não me ajuda enquanto ouço o que tem a dizer?
Então pegamos as ferramentas e seguimos por dentre o pomar.
  - Eu tive um sonho. - disse ela, enquanto eu tentava lembrar o caminho certo até as parreiras.
  - E o que acontecia? 
  - Ele morria.
Por alguns segundos só se ouviu o canto dos pássaros e eu coçava uma barba inexistente até que avistei as tais parreiras e indaguei: 
  - E qual o motivo de tal alarde?
  - Eu não sei. - ela respondeu de imediato. - Só não quero que ele morra. Antes de vir até você, deixei uma carta na porta de Agenor...
  - Dizendo o que?
  - Nada de mais, só dizia "Agenor, se cuide." e minha assinatura.
Daí, algo começou a maquinar em minha cabeça. Era evidente que algo incomodava minha sanidade diante daquilo.
  - Acidália, cara amiga, mas por que motivos achas que seu sonho irá selar o destino do pobre Agenor?
  - Eu sinceramente não sei dizer, Chilon.
  - Então não há motivo pra tanta preocupação.
Um olhar. Foi o bastante pra que eu começasse a entender a situação. 
  - Hum... - foi o som que emiti propositalmente, tentando despertar a curiosidade de minha amiga.
  - No que você está pensando?
Olhei para ela.
  - E se seu temor pela vida de Agenor for só na verdade uma demonstração de afeto? Afinal, quando gostamos de uma pessoa é natural que nos preocupemos. Sei que você e ele se conhecem a um bom tempo e são bons amigos.
  - Talvez... - foi o que ela me respondeu.
  - Veja, quantas vezes você já sonhou que morria? Ou com quantos monstros horrendos você teve pesadelos durante a escuridão da madrugada?
  - Várias vezes.
  - Quantos deles se tornaram reais?
Outro olhar. Dessa vez, diferente. Um olhar de alívio. Não um olhar de quem estava confiando piamente no que eu havia acabado de dizer, mas de quem tinha ouvido, talvez, aquilo que queria ouvir.
  - Nenhum. - me disse Acidália, enquanto ensaiava um sorriso.
  - Estas parreiras que cuidamos agora... Eu já sonhei que eram tomadas por pragas. E sabe o que eu fiz depois disso?
  - Não.
  - Passei a cuidar mais delas. Eu gosto muito dessas uvas e não as quero perder. Mas se amanhã, de pragas elas forem tomadas, eu estarei satisfeito.
  - Como assim, Chilon? Não te entendo! - fui indagado por ela, quase sendo chamado de louco.
  Eu sorri e respondi:
  - Estarei satisfeito, pois cuidando melhor das parreiras elas me presentearam com as melhores uvas. E se ela tiver de sucumbir amanhã eu estarei feliz pelo deleite que ela já propiciou, ao invés de lamentar a colheita que ela ainda podia dar mas não pode. Então, Acidália, vá e cuide da sua parreira para que possa aproveitar os bons frutos enquanto há tempo. Zele pelos frutos que a amizade de Agenor pode lhe dar... porque amanhã uma praga o pode levar.
Então com um sorriso ela agradeceu e se despediu. Provavelmente foi atrás de Agenor, não sei. E depois da poda, eu fiquei pensando: por que não aproveitamos em vida ao invés de lamentar na morte?

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A primeira semente.


A terra está pronta. E as primeiras sementes já foram escolhidas para iniciar o plantio das mudas desse jardim, que é o MEU. Lírios, rosas, cactos, ervas-daninhas. Estas são algumas das plantas que irão brotar neste terreno de húmus, terra, suor, lágrimas e sorrisos.

• O Jardim



Você pode não ter percebido, mas seus pés já tocaram o meu gramado. Mas, não se incomode. Aqui não existem forasteiros, só aqueles que veem apreciar a beleza e os mistérios que rego todos os dias com meus pensamentos e reflexões. Pode ser que as coisas aqui estejam meio confusas agora, o que remete a duas coisas: ou você começará a acompanhar o funcionamento da minha mente, ou você pode simplesmente interpretar tudo ao seu ver (o que é uma arte, tanto de quem cria quanto de quem aprecia). O Jardim, na verdade está em cada um de nós: é nossa consciência e subconsciência, os domínios de nossas mentes. Cada um tem o seu jardim dentro da cabeça, e cada um cuida dele como bem entende. Alguns o tem maravilhosamente cuidado, já outros permitiram que algumas pessoas pisassem nas flores e jogassem lixo, e tem até quem só deixou que o "mato" tomasse conta. O objetivo aqui é só deixar registrado algumas idéias  e sentimentos, não que eu tenho, mas que me são. Afinal, somos o que somo e não o que temos. O que quero dizer é que nossas ações e idéias são um reflexo do que somos, ou seja, não é algo externo que enfiaram em nossas cabeças, é algo que vem de dentro, talvez adormecido ou não. Até porque se fosse o contrário as pessoas seriam iguais e sabemos que podemos pensar parecido e ter muitas coisas em comum, mas nunca é igual. Claro que fatores externos influenciam, mas diga-me... Por que você É você ? E por que eu SOU eu?

• O "Ser"


O nome do blog surgiu desse intuito de mostrar um pouco de como funciona minha cabeça: como eu sou/penso/ajo, como vejo o mundo e as pessoas, o que gosto e não gosto... Então, assim como Platão metaforizou o conhecimento em seu "Mito da Caverna", eu idealizei esse jardim pra mostrar um pouco do meu "ser". São textos pessoais que decidi expor aqui pra passar um pouco do meu tempo e também pra mostrar o meu panorama geral sobre a vida, afinal a vida é TUDO, desde as coisas pessoais  até os segredos do universo. Fora isso eu também queria de alguma maneira registrar algumas reflexões que me surgem, só pra não passar em branco e quem sabe até gerar discussões acaloradas e produtivas. Esse é meu "Ser", a maneira que eu existo. Existo assim e pronto. Mas, como já conclui antes, cada pessoa é uma pessoa.

• As mudas, as flores, as frutas...


São tudo o que guardo dentro de mim e que logo mais irão estar aqui a mostra pra quem quiser entender, apreciar e criticar. Só não esqueçam que rosas são bonitas e cheirosas, mas têm espinhos também. Que frutas podem ter afrodisíacos sabores, mas também podem envenenar. Que algumas plantas podem enfeitar o Jardim do Ser, mas que há outras que podem parasitar e matar as que enfeitam.